A redemocratização

     Em 1979, a sociedade organizada conquista a anistia ampla geral e irrestrita.

     Várias lideranças sindicais cassadas pelo regime militar ou que estavam no exílio, retornam ao país. A vida sindical retoma o seu fôlego. O país marcha para a democracia.

     Há quarenta anos trabalhando no SCDRJ, o escriturário José Semeão é testemunha dos mais importantes fatos ocorridos no SCD nas quatro últimas décadas: “o quartel-general dos sindicalistas daquela época era o Restaurante Paisano que, ficava ao lado do Edifício São Borja, onde se localiza a sede do sindicato. Ali se reuniam até a madrugada, militantes das mais diversas categorias sindicais que, entre um chope e outro, planejavam a realização de greves e passeatas”, recorda.

     Os anos 80 marcaram as campanhas pelas Diretas Já e a convocação da Assembléia Nacional Constituinte, culminando com a promulgação da Constituição de 1988 e com o fim da interferência do Ministério do Trabalho nos sindicatos.

     A partir de 1992, o sindicato realizou dezenas de dissídios coletivos, quintuplicou o espaço físico de sua sede, criou o Centro de Estudos e Atualização Profissional, dinamizou seu jornal TRIBUNA ODONTOLÓGICA, obteve vitórias em milhares de ações trabalhistas, voltando suas ações para a valorização do trabalho odontológico e da dignidade do cirurgião-dentista.

     Em 1994, a entidade passou a denominar-se SINDICATO DOS CIRURGIÕES-DENTISTAS NO ESTADO DO RIO DE JANEIRO, conforme preconiza o Conselho Federal de Odontologia.

     Ao completar 100 anos de fato e 80 oficialmente, o SCDRJ continua reproduzindo as lutas das antigas lideranças. É óbvio que o mundo e o Brasil, mudaram. A globalização contudo, impõe regras impiedosas para a relação capital x trabalho. O ensino revestiu-se do manto da comercialização, insistindo no modelo tecnicista, onde o humano passa ao largo. Faltam lideranças e sobram oportunistas de todos os matizes. Mas ainda assim é preciso não esmorecer, confiar no Brasil, na sua formação ética e na capacidade de reação do seu povo.

Ontem e sempre

      Fernando Pessoa em sua genialidade, afirma que “tudo vale a pena se a alma não é pequena”.

     Escrever sobre a história do sindicato é como se estivesse sentado na poltrona de um trem mágico vendo passar pela janela fatos, pessoas e seus sonhos.

     Num país em que a preservação da memória nacional é objeto de descaso, torna-se privilégio ter contato com documentos que resistiram ao tempo e a sanha destrutiva da insensibilidade daqueles que deviam preservá-los.

     Há cerca de dois anos, por ocasião de uma reforma feita no sótão do SCD, encontrei algumas caixas e pastas em avançado estado de decomposição; efeito implacável do tempo. São documentos preciosos que revelam com fidelidade acontecimentos incandescentes que ano a ano consolidaram a existência das mais importantes entidades da odontologia em nosso estado.

     Muita coisa se perdeu, mas felizmente o que se salvou será eternizado.

     São pequenas conjurações e seus respectivos próceres, dos mais diversos matizes ideológicos. Aliás, em se tratando de convencimento político ou o que seja, isso é o que menos importa quando se trata do interesse coletivo.

     No caso vertente, o único interesse que moveu os personagens que participaram desta grande cena na primeira metade do século XX, foi a odontologia.

     Este modesto texto acima, nada mais é do que a tentativa de prestar o merecido reconhecimento a todos os cirurgiões-dentistas que, anônimos ou não, com maior ou menor participação, deram sua contribuição para projetar a odontologia brasileira na dimensão técnico-científica e de expressiva importância para a saúde da população. A eles o nosso eterno reconhecimento.

     Parabéns ao SCDRJ. O presente justificando o passado.

 

JOSÉ ROBERTO GOMES CORRÊA
Presidente do Sindicato dos Cirurgiões-Dentistas/RJ